E se a psicoterapia não funcionar?
A psicoterapia não é um dispositivo meramente técnico. Pressupõe um encontro entre singularidades e, como qualquer encontro, traz em si também a possibilidade de dissonância, impasse ou falha.
É, frequentemente, no lugar do desencontro, da fricção, que se torna visível a forma como cada pessoa se relaciona com a expectativa de ser compreendida, escutada ou ajudada. Essa expectativa raramente diz respeito somente ao encontro presente, podendo inscrever-se numa temporalidade que reatualiza conflitos antigos na relação terapêutica actual, abrindo espaço para o que permanece em suspensão.
Quando a resposta não surge como esperado, ou não surge com a forma, o tempo ou a intensidade desejada, pode emergir uma grande dificuldade em lidar com a frustração, o silêncio ou a não correspondência. Provavelmente não será tanto falha da psicoterapia, mas a activação de uma experiência que reativa modos de relação profundamente enraizados e, por isso mesmo, pouco disponíveis à falta de sintonia que há tanto se aguarda.
E se a psicoterapia não resultar? Talvez essa pergunta não diga apenas respeito ao processo ou ao psicoterapeuta, mas também à forma como cada um suporta a diferença entre expectativa e encontro, entre aquilo que se procura e aquilo que efectivamente recebe.
Será a psicoterapia a cura para os males do mundo? Não, certamente. Mas ajuda a compreendê-los. E essa é a primeira metade do caminho.
Delicate Tension, No. 85, 1923 – Wassily Kandinsky

