Muitas pessoas hesitam em procurar ajuda psicológica porque sentem que o seu sofrimento “não é suficientemente grave”. Frequentemente, a dúvida não surge da ausência de dor, mas da dificuldade em reconhecer essa dor como legítima pois a experiência psíquica raramente se organiza segundo critérios objectivos de intensidade.
A necessidade de legitimar o sofrimento
A ideia de gravidade pertence mais à economia moral do eu — isto é, ao modo como o psiquismo produz julgamentos implícitos de valor, culpa e legitimidade — do que à lógica própria do sofrimento psíquico. Muitas vezes, aquilo que é vivido como “pouco grave” não o é por ausência de dor, mas por uma espécie de desautorização interna que impede o próprio reconhecimento dessa dor como legítima.
Friedrich Nietzsche desconfiaria profundamente desta necessidade de legitimação — como se fosse necessário um selo de autenticidade para se sofrer, ou uma hierarquia invisível que determinasse quem tem direito à dor e quem deve, simplesmente, suportá-la em silêncio.
Mas o sofrimento psíquico não obedece a essas classificações. Não se organiza segundo critérios de intensidade reconhecível, nem pede certificados de gravidade. Muitas vezes, aquilo que escapa a essas hierarquias não o faz por ser menos importante, mas porque foi sendo desvalorizado ao longo da experiência de vida — como se certas formas de sofrimento não tivessem encontrado, desde cedo, um lugar legítimo onde se pudessem reconhecer.
O sofrimento psíquico requer algo mais simples e, simultaneamente, mais difícil de obter, a saber, um espaço onde não seja necessário justificar de imediato a sua existência. Um lugar onde a experiência possa emergir antes de ser avaliada, e onde aquilo que ainda não se apresenta de forma suficientemente clara não seja apressadamente reduzido a uma explicação, a um diagnóstico ou a uma hierarquia de importância.
Nesse sentido, a psicoterapia pode constituir um espaço onde o sofrimento não necessita de se apresentar como “grave” para poder ser pensado. Por vezes, aquilo que mais insiste em permanecer no psiquismo não é o que parece mais intenso à superfície, mas precisamente aquilo que nunca encontrou plenamente condições para ser reconhecido, escutado e transformado em experiência pensável.
Escaping Criticism (1874) de Pere Borrell del Caso

