Paisagem da Ruptura


Paisagem da ruptura em José Régio

Cântico Negro de José Régio

“Vem por aqui- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: vem por aqui!”

…O poema de Régio inicia-se com a voz do Outro enquanto expressão da normatividade do colectivo: um apelo sereno, contentor e sedutor à inscrição do desejo numa narrativa que tende a desapossar o sujeito da aventura de descobrir o seu caminho e de se constituir como autor da própria vida….

“Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali”

..A resposta a esse apelo do Outro, que consagra o esvaziamento do sentido, manifesta-se como uma ironia que caustica o próprio convite por via do olhar: olhar-gesto-de-recusa; introduzindo uma simetria crítica face à doçura normativa do convite. Os “olhos lassos” e as “ironias” preparam o corpo que cruza os braços como acto de delimitação para a decisão final, já interiormente consumada: “Nunca irei por ali”…

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