Paisagem da suspensão e erosão psíquica


A paisagem da suspensão e erosão psíquica em Bernardo Soares

NaaveelaB ao estilo de Caspar David Friedrich

“NA FLORESTA DO ALHEAMENTO” DE BERNARDO SOARES

“Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me que é muito cedo ainda… Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê…”

…“…Este fragmento sugere um estado de suspensão entre realidade externa e mundo interno, quase dissociativo. O sujeito desperta, mas permanece mergulhado numa experiência oniróide, como se não pudesse inscrever-se plenamente no real. O corpo surge como memória-depósito do sofrimento e da repetição: um corpo-mente antigo, moído do próprio existir, febril e exausto. A realidade permanece ao fundo — não propriamente vivida, mas apenas registada. A tentativa de medir o próprio peso existencial, consagrada no acto de se pesar, parece já desprovida de sentido, como se até a relação consigo próprio tivesse perdido nitidez significado.”

“Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo,estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho.”

…O estado de suspensão entre sono e vigília agrava-se. Um “torpor lúcido” reedita o paradoxo inicial e as fronteiras do eu parecem tornar-se permeáveis. As distinções entre corpo e mente, sonho e realidade, interior e exterior afrouxam, dando lugar a uma fusão das coordenadas da própria percepção. Embora pareça evocar o sentimento oceânico descrito por Freud, trata-se aqui de uma experiência distinta: não uma expansão harmoniosa do eu em fusão místico-religiosa com o universo, mas uma dissolução da sua delimitação narcísica, na qual o sujeito ao invés de se integrar numa totalidade, se desancora, desarticula-se e descentra-se numa indistinção difusa que o fazem perder-se.”

“Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas.”

…A dissolução das fronteiras do eu dá agora lugar à erosão do desejo. E o vento de sombras” surge como prenúncio do que os antigos gregos chamavam de “akedia”, ou seja, apatia, turpor, desinvestimento. O vento é o movimento que transporta os vestígios da morte do desejo – “as cinzas de propósitos mortos” – que, por seu turno, cobrirão o que resta da parte-eu-consciente, sepultando, paulatinamente, a sua vitalidade. Sobre este estado deposita-se uma nova camada de entorpecimento do eu – o “orvalho morno de tédio” – uma metáfora poética perfeita para a “acédia” – a lenta erosão da capacidade de desejar. O sofrimento transforma-se e transforma o eu: já não se manifesta pela intensidade do conflito, mas pelo progressivo desinvestimento da relação consigo, com os outros e com o mundo. Neste caso não é a presença excessiva da dor que domina a experiência, mas antes a ausência da vitalidade necessária para a transformar em movimento, acção e propósito no mundo. A angústia surge, por fim, mas surge como paradoxo: ao invés de somente inércia, brota como intensidade, indesejada claro; mas sem objecto definido, nem direcção. Deste modo já não é o sujeito que a experiencia; é a angústia que o manuseia por dentro, alterando lentamente os contornos da sua vida psíquica, tal como a brisa esculpe o perfil das copas das árvores.

“Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta… Para que há-de um dia raiar?… Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer.”

…Da dissolução do desejo à fadiga ontológica: O sujeito já não questiona apenas os seus propósitos ou investimentos; questiona a própria necessidade de existir. O amanhecer, símbolo do recomeço, é vivido como uma terrível exigência e não como promessa de diferença. A realidade permanece ao longe, reduzida a um “hálito de penumbra”, enquanto o eu se afunda num espaço de semi-vida – a “alcova mórbida e morna” – em que se instala uma “confusão quieta” onde já não existe conflito vivo, mas apenas — através de uma espantosa omnipotência invertida, em que o sujeito se vive como autor do próprio amanhecer — a dificuldade de sustentar a já insustentável tarefa de continuar a ser…

“Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar, entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este…

Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam.”

…O entorpecimento e acalmia não conduzem a uma síntese da experiência, mas à coexistência simultânea de dois planos da realidade. Entre vigília e sono, nenhuma das cenas se impõe ou se anula, permanecendo ambas activas, mas a consciência já não organiza ou discrimina. A imagem dos “dois fumos que se misturam” condensa este estado final de indistinção não resolvida: não há fusão nem clivagem, mas uma sobreposição difusa de realidades que persistem lado a lado sem uma hierarquia possível...

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (Bernardo Soares)