Devo iniciar uma psicoterapia?


Existem perguntas que não são propriamente perguntas: são estados de espírito que se consubstanciam em palavras, neste caso, numa interrogação.

“Devo iniciar uma psicoterapia” raramente surge como uma decisão clara no espírito: surge antes como fissura, como inquietação difusa, como pensamento recorrente, como algo que retorna apesar das tentativas de afastamento — em certo sentido “é ferida que dói, e não se sente” (Luís Vaz de Camões).

Talvez, então, a questão que se coloca não seja apenas a de decidir, mas a de reconhecer que algo em nós requere escuta, cuidado e reparação.

Há sofrimentos que se impõem pela intensidade: é o caso da ruptura catastrófica do psiquismo. Mas outros fazem-no pela persistência com que regressam às nossas formas de sentir, de pensar e de nos relacionarmos. Repetem-se nos vínculos, nas escolhas, nos medos, nos silêncios, nas maneiras de evitar, controlar ou suportar aquilo que permanece sem nome.

Devo iniciar uma psicoterapia? Talvez quando se esgotam os esforços em que nos desgastamos a tentar responder a uma inquietação que persiste, apesar de tudo o que fizemos para a ultrapassar ou conter.

“Cá dentro inquietação, inquietação. É só inquietação, inquietação. Por quê? Não sei. Por quê? Não sei. Por quê? Não sei ainda” (José Mário Branco)”.