As “paisagens do sofrimento” visam ilustrar as formas como o sofrimento se inscreve na experiência psíquica e a reorganiza, repercutindo-se, para além do campo do sentir, na redefinição da arquitectura do psiquismo e na modelação das escolhas e posicionamentos relacionais.
O sofrimento não se deixa reduzir a uma nomeação imediata, nem a uma leitura linear do que o provoca ou, até, mantém. Aparece, muitas vezes, como modo de estar, o qual se vai consolidando ao longo do tempo, com tonalidades afectivas que atravessam diferentes situações, ou como repetições que parecem escapar à vontade do próprio de as interromper.
Escrever sobre paisagens do sofrimento ao invés de diagnósticos clínicos é uma tentativa de dar uma dimensão viva às singularidades das modalidades do sofrimento e suas vicissitudes — não como tentativa de fixar uma definição, mas como descrição aberta do que se observa aquando presença assídua, enquanto psicoterapeuta, dos seus movimentos, variações, retornos e interrupções. É a tentativa de não esgotar a nossa riquíssima existência interior num diagnóstico, vinheta, ou simples explicação. É defender a ideia fulcral de que um tempo próprio de aproximação, de escuta e de leitura é irrevogável. É acompanhar aquilo que dele brota, que se repete ou se desloca, e que, muitas vezes, apenas se torna acessível quando se suspende a urgência de o resolver ou de o compreender de imediato.
