E se eu não souber o que dizer na consulta?


Talvez a questão não seja saber o que dizer. O início do pensamento clínico — e de uma psicoterapia — não exige clareza; aliás, pode mesmo beneficiar de uma certa desorganização do discurso. Aquilo que é realmente importante é a disponibilidade para sustentar o não saber – sem evacuar demasiado depressa essa angústia.

Nesse sentido, o não saber não é um vazio a preencher, mas uma posição possível dentro da relação terapêutica. É muitas vezes na presença de outro que aquilo que tende a ser rapidamente evitado ou preenchido pode começar a ser sustentado de outro modo

Porém, existem pessoas que chegam à primeira sessão com um discurso muito estruturado, o qual, com o tempo, se vai desvanecendo ou revelando as suas próprias fissuras. Outras chegam apenas com um incómodo difuso, ou simplesmente com a sensação de não saber por onde começar.

Todas as posições são perfeitamente legítimas, mas é frequentemente no abrandar do controlo do discurso que algo mais verdadeiro começa a emergir.

Na realidade, não é necessário saber por onde começar. O início da psicoterapia já aconteceu antes do encontro e continuará a desenrolar-se inevitavelmente na sessão — quer como revelação, quer como defesa, quer como não dito.

A peça 4’33” que em seguida se apresenta trabalha o silêncio. Não procura preencher o espaço com música, mas pretende sustentar a atenção ao que emerge do próprio silêncio.

Música: 4’33” de John Cage interpretada pela Berliner Philharmoniker e dirigida por Kirill Petrenko