O que ocorre na primeira consulta?


Mais do que a descrição factual dos acontecimentos, importa frequentemente a tonalidade afectiva com que são vividos, os silêncios que interrompem a narrativa, as hesitações, as repetições, a ansiedade que trespassa o controlo, o receio de ser julgado, ou mesmo aquilo que parece surgir apenas lateralmente, como se determinadas experiências ainda não tivessem encontrado palavras através das quais possam ser plenamente descritas e, por consequência, pensadas.

Na primeira sessão não se pretende chegar a um diagnóstico, nem sequer estabelecer um compromisso definitivo. Existe antes a tentativa do psicoterapeuta escutar o sofrimento e os seus modos defensivos, os quais se organizam e se reflectem na forma como o paciente enuncia a sua dor.

A primeira consulta constitui, nesse sentido, um espaço inicial de aproximação ao modo singular como cada pessoa sofre, se relaciona consigo própria e organiza a sua experiência interior. Não se trata apenas de compreender “o problema”, mas de começar a escutar a lógica psíquica através da qual esse sofrimento ganha forma e persistência — tanto no mundo interno como nas relações com os outros.

É também um momento em que o paciente pode procurar perceber se encontra, naquela relação terapêutica em particular, condições de escuta, pensamento e confiança suficientes para iniciar um processo de psicoterapia. Porque, apesar da importância do enquadramento teórico e clínico, é frequentemente na qualidade deste encontro inicial que começa — ou não — a possibilidade de um verdadeiro trabalho terapêutico.

Excerto do filme Columbus (2017) de Kogonada