Quando é que a psicoterapia começa a fazer sentido?


Muitas pessoas permanecem longos períodos nesse território intermédio entre a ameaça de colapso e a dificuldade em serenar; entre a tentativa de manter o controlo e a experiência de fragmentação afectiva que, frequentemente, insiste em transfigurar-se e retornar sob outras formas. A questão, no entanto, não é necessariamente a gravidade do sintoma, mas a repetição da sua forma — a estranha familiaridade dessa repetição.

Há conteúdos da vida interior que parecem anteceder a própria consciência que deles temos. Manifestam-se obliquamente — através de sonhos, sintomas, fantasias, imagens recorrentes, inquietações sem objecto plenamente definido — como se alguma dimensão mais profunda do psiquismo procurasse lentamente aproximar-se da superfície da experiência vivida.

Talvez a psicoterapia comece a fazer sentido quando alguém pressente que certos movimentos interiores não podem continuar a ser apenas evitados, corrigidos ou silenciados; quando começa a emergir a intuição de que há, no sofrimento, algo que procura não apenas alívio, mas, sobretudo, uma profunda compreensão. Como se determinadas formas de angústia transportassem um sentido desconhecido, aguardando condições para poderem ser desveladas.

Nesse sentido, a psicoterapia pode tornar-se um lugar singular de aproximação ao mistério da vida interior: um espaço onde aquilo que nos inscreve no mundo e que permaneceu fragmentado, obscuro ou inominado começa, lentamente, a adquirir forma, linguagem e presença psíquica.

Excerto de “Tree of Life” de Terrence Malick; Música por Zbigniew Preisner – Lacrimosa